Era uma vez…

O s contos de fada são, inicialmente, coletâneas da tradição oral do povo (folklore=saber do povo). Os mais famosos são aqueles coletados pelos irmãos Jacob (1785–1863) e Wilhelm Grimm (1786–1859) na Alemanha no século XIX. O livro dos irmãos Grimm foi publicado em 1812 sob o título de Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos (Kinder- und Hausmärchen).

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Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos. Irmãos Grimm.

Entre eles estão clássicos como  A Gata Borralheira (Aschenputtel)”,  João e Maria (“Hänsel und Gretel“), Rapunzel, Rumpelstiltskin (“Rumpelstilzchen“), e Branca de Neve (“Schneewittchen“).  O trabalho dos irmãos Grimm está ligado à “Primavera dos Povos” de 1848 e vários movimentos de afirmação da nacionalidade. Os partidários dos novos países afirmavam residir na memória cultural do povo uma cultura única, definidora do caráter nacional, ao contrário das elites europeias que falavam o francês e cultivavam uma cultura clássica comum.

Os contos originais eram muitas vezes aterrorizantes, uma vez que se destinavam a incutir nas crianças o medo dos estranhos e o medo da floresta. Na Idade Média, a floresta era o lar de bandoleiros (lembrem-se de Robin Hood) e dos servos sem vínculo com a terra (os vilões, nome que veio a designar alguém desprezível). Era um lugar realmente perigoso para uma criança.

Também vemos um mundo no qual era banal uma mulher morrer no parto e o marido contrair segundas núpcias. A pobreza e a escassez levavam a madrasta a priorizar os seus próprios filhos em detrimento dos anteriores. A salvação da criança era ter uma madrinha que pudesse acolhê-la. Hoje a escolha de padrinhos e madrinhas é apenas uma maneira de homenagear alguém da família ou amigos chegados, porém antigamente era um dever sério. Se a mulher morresse no parto, assumia-se o compromisso de criar a criança como sua, ou pelo menos evitar que passasse necessidade.

No entanto, os contos dos Grimm não são os mais antigos. Não deixa de ser irônico que uma empreitada usada para provar o caráter único do povo alemão contenha versões de contos franceses mais antigos, como o de Cinderela. Na verdade, o principais autor do conto de Fadas é Charles Perrault (1628-1702) autor do final do século XVII. Perrault é o autor dos clássicos Chapeuzinho Vermelho (Petit Chaperon rouge) , A Bela Adormecida (La Belle au bois dormant), O Gato de Botas ( Le Maître Chat/le Chat botté), Cinderela (Cendrillon ou La petite pantoufle de verre), Barba Azul (La Barbe Bleue) e O Pequeno Polegar (Le Petit Poucet).  Os contos de Perrault ficaram conhecidos como Contos da Mamãe Ganso e têm forte influência da corte francesa de Luís XIV. Vemos reis morando em palácios e transitando em carruagens, em contos cheios de referências da Idade Moderna.

Cartaz de A Companhia dos Lobos, de Neil Jordan, 1984.

Cartaz de A Companhia dos Lobos, de Neil Jordan, 1984.

Ora, toda essa tradição deu origem a um sem número de versões e seriados, como os filmes da Disney. Em 1984, o diretor Neil Jordan filmou uma versão psicanalítica de Chapeuzinho Vermelho, o excelente A Companhia dos Lobos. A história da menina que encontra um lobo malvado na floresta tem um sem-número de adaptações, como se pode ler nessa lista da Wikipédia, que está longe de ser exaustiva.

 

Em 2002, o roteirista Bill Willingham lançou a série Fables pelo selo Vertigo. Nessa criativa história, os personagens dos contos de Fadas foram expulsos das suas terras originais por um terrível Adversário e estão condenados a viver entre os Mundanos (nós). Branca de Neve, separada do Príncipe, retratado como um completo canalha, tenta administrar a comunidade e o Lobo Mau age como detetive investigando um caso criminal acontecido nas primeiras páginas.

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Quem ler o quadrinho vai descobrir de onde saiu o enredo da série Once Upon a Time (canal ABC, 2011). Com a desvantagem de ter sido edulcorada e “disneyrizada” para não ferir os mais sensíveis. A onda dos Contos de Fada revisitados inclui ainda desenhos como a série Shrek (Dreamworks, 2001) e o seriado de TV Grimm (canal NBC, 2011), além de numerosos filmes com versões alternativas de contos de fadas como Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman, Rupert Sanders, 2012) e Malévola (Maleficient, Joe Roth, 2014).

Como é típico da indústria audiovisual, assim que um tipo de filme ou série cai no gosto do público, saem adaptações de todos os tipos naquele filão, na esperança de lucro certo. Os contos originais são um tesouro valioso pelo que revelam do inconsciente e dos arqu250px-Once_Upon_aTime_promo_imageétipos presentes nas diferentes culturas nas quais são coletados. Convido você a resistir ao “empastelamento” dessas fontes e ler os originais, nos quais você descobrirá histórias aparentemente simples, mas que falam muito sobre nós, humanos, e nossas imutáveis paixões.

Real

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A Fadiga da Civilização

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s povos com uma longa história documentada sentem o peso de sua tradição. O acúmulo do que é preciso saber para se inserir naquela sociedade pode ser sentido como um fardo e então surge uma saudade de épocas mais simples, nas quais a felicidade parecia estar ao alcance da mão.

Essa tendência ao Arcadismo também se manifesta na Fantasia. Os dois exemplos que me vem à mente são Titus Groan, de Mervin Peake, e Conan, o Bárbaro, de Robert E. Howard.

Os Groan

A família Groan e seus agregados. (Foto: BBC)

Gormenghast

(Imagem: Gormenghast, the official site)

Os livros da série Gormenghast (Titus Groan, Gormenghast, Titus Alone) foram publicados entre 1946 e 1959. Peake também era poeta e ilustrador de talento, e a escrita de Titus Groan revela o tamanho de sua ambição literária: um estilo que por vezes lembra Dickens, capítulos escritos em fluxo de consciência e com esmero literário. O romance narra as aventuras do anti-herói Steerpike. Os personagens têm nomes que remetem a decadência (Flay – “Esfolar”, Swelter – “Abafar”, Sepulchrave – “Anseia pela sepultura”).

Fucsia e Steerpike, personagens de TItus Groan.

Fucsia e Steerpike, personagens de TItus Groan. (Imagem: Gormenghast, the official site)

Peake usa um estilo rebuscado de propósito. A principal mensagem do seu livro é a esterilidade de uma Tradição que impede o novo de surgir. O escritor retrata rituais sem sentido em volta do  senhor do castelo, o Duque de Groan, sua parentela e criados caquéticos.  O próprio castelo de Gormenghast é uma metáfora desse excesso de civilização: cresceu tanto que se tornou um labirinto de torres impossível de ser mantido ou compreendido. Por trás desses personagens fascinantes na sua loucura, como a infantil Fúcsia ou as burríssimas tias gêmeas Clarice e Cora, adivinha-se uma crítica mordaz à Monarquia inglesa. Um guia completo do mundo de Gormenghast encontra-se na página oficial, com direito à imagens das ilustrações de Peake.

DVD Gormenghast

DVD da BBC, produzida em 2000. (Foto: The Wertzone)

A BBC fez uma excelente minissérie abrangendo os três livros com produção caprichada e excelente elenco em 2000. Steerpike foi vivido por Jonathan Rhys Meyers e o Sr. Flay por Christopher Lee (casting completo no IMDB). O visual seguiu de perto as ilustrações de Peake, porém a narrativa ficou entrecortada pelo próprio estilo literário do autor, muito difícil de adaptar por ser tão subjetivo. O primeiro episódio causará no espectador um estranhamento inicial. Os personagens, no entanto, são fascinantes e a história, muito original.

English: The cover of Weird Tales issue May 19...

English: The cover of Weird Tales issue May 1934 featuring Queen of the Black Coast, one of Robert E. Howard’s original stories about Conan the Barbarian. Painting by Margaret Brundage. Italiano: Copertina di Weird Tales, maggio 1934 Nederlands: Weird Tales; Queen of the Black Coast, een van Robert E. Howard’s originele verhalen over Conan de Barbaar, mei 1934 Português: Weird Tales edição da revista de 1934. (Photo credit: Wikipedia)


As historietas de Howard foram publicadas em 1932 na revista Weird Tales (algo como “Contos Estranhos”). Nelas, Howard representa a civilização como uma força corruptora que vai minando a virilidade do homem. Seu herói, Conan, o Cimério, é descrito sempre como mais forte e alerta do que seus rivais “civilizados”. Sistemas filosóficos ou religiosos elaborados são mostrados como desvantagens por impedirem a ação e criarem culpas e fantasmas imaginários.

Não importa que a história, na verdade, desminta Howard. Os Celtas – nos quais são baseados os Cimérios –  foram derrotados pelos Romanos (os Aquilônios de Howard), mais disciplinados e avançados tecnologicamente. Os Germânicos, com toda a sua bravura, tiveram o mesmo fim. As pessoas vibram no cinema com os feitos dos 300 de Esparta, porém quem derrotou o Império Persa foi a democrática Atenas.

As histórias de Howard tiveram várias adaptações para o cinema: Conan, o Bárbaro (1982, com Arnold Schwarznegger no papel principal); Conan, o Destruidor (1984) e Conan, o Bárbaro (2000, com Jason Momoa). O filme de 1982 é o mais fiel à obra de Howard. Os roteiristas juntaram no enredo elementos de várias histórias e condensaram em uma personagem feminina características de vários pares amorosos do Cimério. Existem, é claro, outras histórias de Conan escritas por outros autores (uma lista dos autores está na Wikipedia em inglês no subtítulo Book Editions). O filme de 1982 pode ser considerado a melhor adaptação se o critério for a fidelidade ao original.

Conan, o Bárbaro, de 1982. (Foto: IMDB)

Conan, o Bárbaro, de 1982. (Foto: IMDB)

Quando o mundo torna-se mais complexo e incerto do que nós conseguimos lidar, o sonho do retorno a um tempo selvagem ressurge com força. E a julgar pela popularidade do Cimério até hoje, esse é um anseio sempre presente.

Final vermelho

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A matriz da Matrix

is this the real life? Is this just fantasy?

(Queen, Bohemian Rapsody, 1975, do álbum A Night at the Opera)

Cover of "Total Recall"

Cover of Total Recall

Um dos temas mais perturbadores da literatura fantástica é a possibilidade de que nossa vida não seja real – que tudo não passe de um sonho ou simulacro. Um dos principais escritores do gênero que exploram essa possibilidade é Philip K. Dick. Um exemplo é o filme O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990, Paul Verhoeven), baseado no seu conto We Can Remember It for You WholesaleNo filme original, estrelado por Arnold Schwarzenegger, um operário decide fazer um implante de memória para escapar da rotina. Em nenhum momento do filme sabemos se o implante funcionou ou não, se a seqüência de eventos se passa na mente do protagonista ou de fato aconteceu.

Blade Runner

Se considerarmos que nossas memórias são parte indissociável do nosso eu, como afirmava Santo Agostinho nas Confissões e como tristemente confirmamos ao conhecer alguém que sofre de Alzheimer, não ter certeza de suas memórias tem um efeito devastador na psique. Ora, nossas lembranças são mesmo, em parte, inventadas: são impressões psicológicas profundas geradas por determinados fatos na nossa vida. Se não tivermos outras testemunhas e não pudermos comfrontá-las com registros, como ter certeza da veracidade das nossas recordações? Quantas vezes todos nós já fomos surpreendidos por descobrir que temos uma memória falsa do ponto de vista dos fatos, porém intensamente emocional? Você poderia jurar que usava um casaco rosa quando ganhou aquele presente especial de Natal, mas quando vê a foto no álbum da família, descobre que está de blusão amarelo…entretanto, se soubéssemos que todas nossas recordações não passam de uma ilusão, entraríamos em crise. A possibilidade de forjar uma personalidade com memórias artificiais é retratada nos andróides do filme Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982, dirigido por Ridley Scott, baseado em Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick).

Film poster for the original Ghost in the Shel...

Film poster for the original Ghost in the Shell film, which GitS: SAC is compared to in several reviews. (Photo credit: Wikipedia)

E o que dizer dos sonhos? No violento animê O Fantasma do Futuro (Ghost in the Shell – Kôkaku kidôtai, 1995, de Mamoru Oshii) uma policial andróide enfrenta um perigoso criminoso com o sugestivo nome de Puppet Master (Titereiro, ou mestre das marionetes). Se as memórias são fabricadas, podem ser construídas por um terceiro que nos manipularia como marionetes.

Futuros distópicos com interações homem/máquina nas quais não se sabe mais quem é o quê são recorrentes na literatura chamada de cyberpunk. O principal livro do gênero é Neuromancer de William Gibson, publicado em 1984. O romance é escrito em uma linguagem cheia de gírias futurísticas, na tradição de A Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1962, Anthony Burgess).

Cover of the Brazilian release, depicting the ...

Cover of the Brazilian release, depicting the character of “razorgirl” Molly Millions. (Photo credit: Wikipedia)

Em Neuromancer o hacker Henry Dorsett Case é pego roubando de seu empregador, que se vinga afetando o seu sistema nervoso central e o impedindo de continuar a se conectar na Matrix, rede social e de internet na qual todos interagem no futuro. Henry Case envolve-se em um trabalho clandestino para conseguir a cura e um novo pâncreas, estragado pelo uso de drogas. A missão o envolve com duas Inteligências Artificiais (AI), Wintermute e Neuromancer. Consciências podem ser copiadas para a Matrix por Neuromancer, e passam a ter uma existência puramente virtual.

Cover of

Cover of Dark City (New Line Platinum Series)

Em 1988, saiu o filme Cidade das Sombras (Dark City, 1988, de Alex Proyas). Esteticamente, Dark City faz uma homenagem aos filmes do expressionismo alemão como O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920, Robert Wiene) e Nosferatu (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922, F. W. Murnau). O espectador começa a ver um filme que, aparentemente, se passa na década de 30, até uma reviravolta espetacular, principalmente quando assistida na tela grande do cinema.

Cover of

Cover of The Thirteenth Floor

Explorando uma temática parecida, em 1999 foi lançado o filme 13. Andar (The Thirteenth Floor, 1999, de Josef Rusnak). Mortes misteriosas começam a acontecer em uma firma que está criando um jogo em realidade virtual imersiva. Para jogar, é preciso ligar sua consciência à máquina e “vestir” a aparência de um dos personagens. O protagonista, Douglas Hall, começa a investigar o mistério e tem uma revelação inesperada. O filme é baseado no romance Simulacron-3, 1964, de Daniel F. Galouye.

poster for The Matrix

poster for The Matrix (Photo credit: Wikipedia)

No mesmo ano, mas mais tarde, foi lançado o filme Matrix (1999, irmãos Wachowski), combinando elementos do cyberpunk e de todos esses antecedentes. O mix dos irmãos Wachowski provou ser empolgante, porém de fôlego curto nas continuações. Sem ter planejado uma trilogia desde o início, os seguintes Matrix Revolutions e Matrix Reloaded não conseguiram corresponder à expectativa.

O principal problema foi a indefinição de gênero. Quando Neo em Matrix Revolutions consegue manipular a “realidade”, desconfia-se de um efeito “bonecas russas”: aquela ainda não é a realidade, ele apenas saiu de uma simulação para cair em outra. Qualquer explicação que os diretores dessem deveria levar em conta que a premissa do primeiro filme era a de uma película de ficção “científica” (com uma certa liberdade em relação às Leis da Termodinâmica, mas ainda assim). Os protagonistas não deveriam ter poderes mágicos; eles são hackers do sistema da Matrix. Se a outra realidade também é manipulável, ela também deveria ser uma Matrix. Um sistema de magia implica na existência de um mundo sobrenatural, e isso não está na premissa de um mundo cyberpunk.

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Cover of Paprika

Com uma trama melhor resolvida é o animê Paprika (Papurika, 2006, Satoshi Kon). Nesse desenho, um time de cientistas é capaz de entrar nos sonhos de terceiros como um novo tipo de terapia psicoterápica. No entanto, alguém começa a usar o sistema para manipular e enlouquecer as pessoas e a protagonista precisa encontrar o responsável antes que haja mais vítimas. Quatro anos mais tarde saiu o filme A Origem (Inception, 2010, Christopher Nolan), também falando de sonhos dentro de sonhos e a dificuldade de saber o que é real e o que é sonho.

The Adjustment Bureau

The adjustment bureau movie poster (Photo credit: neeravbhatt)

Os autores de Ficção Científica costumam explorar mais esses conceitos do que os de Fantasia, uma vez que a explicação para o que está acontecendo costuma envolver tecnologia e não metafísica. Uma exceção é o filme Os Agentes do Destino (The Adjustment Bureau, 2011, George Nolfi), também baseado na obra de Philip K. Dick, The Adjustment Group.  No filme, o político David encontra a bailarina Elise em um banheiro masculino (isso mesmo), porém ao tentar se aproximar da moça começa a esbarrar em estranhos obstáculos. O filme é bom (o final poderia ser melhor) e bem construído, com uma explicação mais sobrenatural do que científica, o que o torna difícil de ser classificado.

Como o leitor que me seguiu até aqui observou, por mais que um tema já tenha sido tratado por filmes e livros, sempre é possível criar algo novo e interessante. Um escritor  não precisa de uma história que nunca foi contada, mas sim de uma abordagem nova. Espero ter dado dicas de bons filmes e boas leituras para os amantes do gênero. Até a próxima!

Águia

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Fantasias africanas

O
s leitores de Fantasia sabem que muitas histórias usam lendas celtas e nórdicas como base dos seus mundos fantásticos. O principal motivo disso é a força que o gênero fantástico tem no mundo anglo-saxão. Na Inglaterra, obras como Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol ou 1984 de George Orwell são consideradas clássicos da Literatura e não de um gênero específico.

English writer Neil Gaiman. Taken at the 2007 ...

English writer Neil Gaiman. Taken at the 2007 Scream Awards. (Photo credit: Wikipedia)

Mas nada impede que escritores de outros quadrantes resolvam usar mitologias diferentes como inspiração de suas criações. Uma delas são as diversas mitologias africanas. A tradição caribenha e nigeriana está presente, por exemplo, nessas três obras: Anansi Boys, de Neil Gaiman; Akata Witch de Nnedi Okorafor e Wild Seed de Octavia C. Butler.

Anansi Boys

Anansi Boys,, de Neil Gaiman. (Imagem: Amazon).

Neil Gaiman parte da cultura caribenha para escrever o divertido Anansi Boys. Criador da série em quadrinhos cult Sandman, Gaiman tem um texto leve e bem-humorado. Nessa história o herói é o trickster Anansi e seus filhos gêmeos que precisam enfrentar uma ameaça do mundo espiritual.

Akata Witch, de Nnedi Okorafor. (Imagem: Amazon)

Akata Witch, de Nnedi Okorafor. (Imagem: Amazon)

Okorafor situa sua história na Nigéria em Akata Witch, tendo como ponto de partida a cultura Igbo. A série da escritora tem ecos de Harry Potter e de Percy Jackson, porém a cor local é tão original e a visão de mundo tão contrária à americana ou inglesa que o resultado é muito interessante. Por exemplo, o ensino formal tem pouco peso no mundo ficcional de Okorafor. A experiência e saber “se virar” são coisas muito mais importantes. É um romance infanto-juvenil bem escrito, cuja originalidade está nesse fundo cultural diferente do que se está acostumado. Para o leitor brasileiro, momentos de identificação serão constantes, uma vez que a Nigéria é um dos berços da cultura africana no Brasil (os Orixás). A protagonista é uma negra albina e Okorafor faz a defesa das diferenças como algo especial, portador de magia.

Wild Seed, de Octavia C. Butler. (Imagem: Amazon)

Wild Seed, de Octavia C. Butler. (Imagem: Amazon)

Por fim, Wild Seed também usa a mitologia da mesma região africana de Akata Witch, mas é um romance com conteúdo mais adulto. A trama segue dois seres mágicos africanos – Doro e Anyanwu – e sua saga no Novo Mundo, na época do tráfico negreiro.

Essa pequena seleção de três livros mostra como é possível criar universos fantásticos interessantes sem fazer uso de mitologias que estão distantes da própria cultura em que se vive. Celtas e nórdicos não deixaram marcas entre nós. Eles não estão nos nossos gestos, falas e pensamentos, a não ser como um imaginário emprestado. É interessante ler sobre eles, mas porque não escrever sobre aquilo que carregamos conosco?

Africano

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Andando em círculos

O FASCÍNIO DO STATUS

C. S. Lewis

C. S. Lewis.(1898-1963) Foto: E-Books Library.

O antigo professor de Literatura Medieval e Renascentista de Cambridge, C. S. Lewis, não escreveu apenas As Crônicas de Nárnia. Sua obra inclui inúmeros outros livros de ficção e não-ficção. Um dos meus textos favoritos de Lewis é um discurso que ele fez em uma palestra em 1944. O texto se chama The Inner Ring.

Acho o título meio difícil de traduzir. Lewis fala de grupos, turmas, patotas (círculos) que se formam naturalmente pela convivência humana. Todos nós participamos de vários. Quando crianças, temos nossa turma de amigos, por exemplo.

Porém existem dois tipos de círculos. O primeiro é aquele que é formado pelo amor em comum. Se você gosta de jogar videogame, pode ser que tenha um grupo de amigos que se reúnem para jogar. Se mais alguém quiser jogar também, o círculo está aberto: basta que o novato traga a sua CPU. O que reúne as pessoas é o prazer legítimo de fazer algo divertido juntos. O mesmo se você gosta de ler. Quanto mais gente gosta de ler, melhor; se você encontrar outras pessoas que também gostam de ler, com prazer você fará novas amizades e conversará com elas sobre a sua paixão em comum.

O segundo tipo de círculo é aquele que confere uma exclusividade para quem participa. Eles aparecem pela primeira vez na nossa vida quando entramos na adolescência. O grupo das Pattys do colégio. O grupo dos nerds. E tantos outros. Nesses grupos, não raro a graça de participar é a suposta superioridade que ser membro confere em relação às outras pessoas. São grupos excludentes. Se os nerds se reúnem para se darem um rótulo de inteligente ao invés de compartilhar seu amor pelos livros, quadrinhos, Sci-Fi e coisas do gêneroentão formaram um Inner Ring. Se as Pattys estão juntas com o objetivo de exibir suas bolsas Victor Hugo e a roupa da moda aprovada pelo grupo e não porque realmente gostam de fazer coisas juntas, então elas formaram um Inner Ring.

O último parágrafo não soa como um fenômeno agradável ou bacana, não é mesmo? Segundo Lewis, essa vontade de pertencer ao círculo para ganhar um rótulo qualquer, um atestado de inteligente, cool, popular, vencedor, é a principal causa das nossas maldades cotidianas. O escritor é bem realista: dificilmente alguém vai aparecer na nossa frente com um saco de um milhão de dólares e tentar nos corromper.  Mas quantas maldades, quantas grosserias todos nós já cometemos para sermos aceitos em um grupinho assim!

A fome de status, a vontade de ganhar um atestado de intelectual, de bem-sucedido, de “pegador”, seja o que for, desperta o pior em nós. Você é capaz de renegar um amigo de infância porque ele não é cool o bastante, destratar sua tia distante porque ela não é refinada o suficiente, fazer grosserias para o seu parceiro porque ele não se parece com uma modelo ou um ator de cinema. Tudo para se ajoelhar no altar de algo vazio e sem significado: afinal, aquelas pessoas não estão reunidas pelo amor a algo, mas para disfarçar o seu próprio vazio.

Labour of the Danaids

The Labour of the Danaids, 1878 (oil on canvas), Weguelin, John Reinhard (1849-1927) / Private Collection / Photo © Christie’s Images / The Bridgeman Art Library.

Lewis fecha o texto explicando que a busca por esses rótulos é como o castigo das Danaides: encher eternamente um vaso furado. Ele dá o exemplo do violinista que quer pertencer à Orquestra de Câmara da sua cidade. Se ele quer entrar para ter um salário fixo, tocar com bons músicos e trabalhar um repertório que o fascina, será feliz. Se o instrumentista quer apenas se exibir por aí dizendo que toca naquela orquestra, logo sua felicidade de ter entrado se converterá em amargor. Sua alma cheia de furos vazará a pouca alegria que nela colocou. Se tiver azar, irá buscar um novo grupo, um novo círculo, ainda mais prestigioso que o primeiro. E encontrará novamente o vazio.  Se tiver sorte, chegará o momento da Verdade e perceberá que o problema é ele, e não a orquestra. Citando o texto de Lewis:

Until you conquer the fear of being an outsider, an outsider you will remain.

Interpretando o original em inglês, eu diria: enquanto você não derrotar o medo de se sentir rejeitado, você continuará se sentido sempre aquém. Quando não tiver mais esse medo, o tonel se quebrará e virá a paz. Ao invés de tentar se engrandecer, descobrirá que a verdadeira realização é ser exatamente aquilo que se é, e fazer o que se faz pelo amor às coisas em si mesmas.

Círculos

*Patrícia Degani é mestre em Filosofia Antiga e Medieval pela PUCRS.

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Fazer com Arte e não pela Arte

OU SOBRE O PEDANTISMO

Christian & Oriental Philosophy of Art

COOMARASWAMY, Ananda. Christian & Oriental Philosophy of Art. (Foto: Goodreads)

Lendo recentemente O Herói de Mil Faces (The Hero With Thousand Faces) de Joseph Campbell e Filosofia da Arte Cristã e Oriental (Christian and Oriental Philosophy of Art) de Ananda K. Coomaraswamy consegui formular para mim o porquê do pedantismo ser mais do algo errado: é também imoral, no sentido religioso do termo.

Tanto Campbell quanto Coomaraswamy entendem que existe um significado metafísico por trás da mitologia e da arte das sociedades tradicionais. Campbell também enxerga um conteúdo psicológico de transformação do ego em direção a um significado maior da existência. Já o escritor indiano insiste que toda a arte, ou seja, toda a técnica de fazer algo bem-feito implica uma busca do Bem, do Belo e do Justo. Assim, todas as pessoas, do carpinteiro ao matemático, deveriam fazer o que fazem com arte. Porém, a arte é apenas o meio e não o fim do que fazem. O fim é a busca da Verdade.

Pedantismo é quando se dá mais importância ao meio que à finalidade em si.

Todas as vezes que fui pedante senti-me profundamente envergonhada depois. Parece ser, infelizmente, uma tendência nas pessoas que acumulam muito conhecimento sem digeri-lo direito. O pendantismo é errado porque ter mais informação acumulada não dá a ninguém o direito de menosprezar os outros. Analisando por esse prisma, ser pedante equivale a ser mal-educado. Você fala uma língua que ninguém entende só para se exibir.

O Herói de Mil Faces

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. (Foto: Livraria Cultura)

O desprestígio atual dos intelectuais está muito ligado a isso. Muitos acadêmicos e intelectuais, principalmente da área de Humanas, não estão transformando o seu saber. Ao invés de ajudar as outras pessoas a chegar à Verdade ou dar uma luz sobre um problema real, perdem-se em exibições e competições de ego. Como querer que alguém simpatize com isso?

Na literatura de Fantasia, o pedantismo consiste em se alongar indevidamente sobre o mundo que se criou, exibindo-o em detalhes exagerados, atrapalhando a narrativa. J.R.R. Tolkien criou um universo paralelo, porém usou apenas o que interessava à sua narrativa. O resto foi publicado em apêndices ou como livros independentes. O professor de Oxford conhecia várias línguas antigas, mas não entupiu O Senhor dos Anéis com citações em anglo-saxão ou gaélico. Mervyn Peake, da série Gormenghast, escreve em um estilo propositadamente empolado, parecido com o dos escritores do século XIX (como Dickens) porque quer dar a ideia de um lugar antiquado e sufocado pela tradição. Nenhum deles queria se exibir ou intimidar o leitor. O que os movia era o amor à língua inglesa, no caso de Peake, e o amor à mitologia, no caso de Tolkien. Dois exemplos a serem seguidos.

Firula

*Patrícia Degani é mestre em Filosofia Antiga e Medieval pela PUCRS.

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O problema das fontes

Ter acesso às fontes originais da mitologia e do folclore pode ser um problema para o leitor brasileiro. Não é fácil conseguir versões em português de obras como o Mabinogion (lendas galesas), o Beowulf, as Eddas (lendas nórdicas), o Kalevala (épico da Finlândia) e muitas outras que serviram de referência para escritores de fantasia consagrados como J. R. R. Tolkien ou C. S. Lewis.

Fonte com leão

Foto: The Fine Art Gallery

Em primeiro lugar, esses textos originais estão escritos em línguas antigas ou incomuns, como latim, grego, gaélico, islandês, anglo-saxão, etc. O professor Tolkien conseguia lê-los no original, mas é por isso que ele era um catedrático de Oxford. A segunda opção é ler uma boa tradução direto do original.

Traduzir é tarefa difícil e que requer muito conhecimento, não só de idiomas, mas também de história, cultura, etc. Quando o tradutor não tem nem busca esse conhecimento, e nem tem alguma noção do idioma original, acontecem coisas inacreditáveis.

Vou dar apenas um pequeno exemplo. Na Roma Antiga, o Imperador era chamado de tu. Santo Agostinho, já na transição entre Antiguidade e Idade Média, chama Deus de tu na sua obra mais conhecida, As Confissões. Isso porque no latim vós é simplesmente o plural de tu.  Se o bispo de Hipona chamasse Deus de vós, seria acusado de politeísta.

Os reis não foram sempre tratados por vós ou por majestade. O tratamento usual na Idade Média era Sua Graça. Até onde sei, foi Henrique VIII (aquele da minissérie dos Tudors) que exigiu ser tratado de Majestade pela primeira vez. e ele é um rei do Renascimento…

The Leviathan

Capa original de O Leviatã, de Thomas Hobbes. Foto: Wikipedia

O uso do “nós” e do “vós” para referir-se a reis está ligado a autores de  teorias absolutistas da monarquia, entre eles Thomas Hobbes e sua obra O Leviatã (The Leviathan). Se você observar com cuidado o rei que está no topo da página do livro, verá que ele é feito de pequenas pessoas. Essas pessoas representam o conjunto dos seus súditos. O monarca absoluto encarnaria, assim, o conjunto das vontades de seus súditos. Ele seria a Vontade Geral e por isso poderia dizer “nós, a França”, como Luís XIV.

Leviatã detalhe

Acontece que essa é uma construção típica da Idade Moderna na Europa Ocidental. Tradutores descuidados carregam esses cacoetes para todas as culturas e todas as épocas, dando a falsa impressão de que todos os reis sempre foram iguais, tratados da mesma forma, tiveram as mesmas prerrogativas e sempre usaram manto vermelho com pele de arminho e coroas gigantescas na cabeça. Pois é, o rei medieval francês São Luís ou Luís IX (1214-1230) gostava de usar roupas azuis, em homenagem à Virgem Maria.

Recuando ainda mais, anax (ἄναξ) não é a mesma coisa que basileus (βασιλεύς) nos poemas homéricos.  Na  Ilíada, anax é reservado para os líderes máximos (Agamemnon e Príamo) enquanto os outros chefes tribais ou reis menores são tratados por basileis. Além disso, anax é um termo mais antigo, referente à cultura micênica. Todas essas palavras seriam traduzidas por rei, porém o que isso implica em cada caso é muito diferente. Pelo que se sabe até agora, os reis arcaicos gregos não tinham as mesmas prerrogativas e viviam mais modestamente do que o rei anax/wanax micênico que os precedeu. Quem tiver interesse em saber mais sobre a Grécia Antiga, recomendo o ótimo videocurso de um grande especialista, Donald Keegan, da Yale University (Introdução à História da Grécia Antiga).

Imagem galo-romana da deusa Epona. Musée Lorrain, Nancy. Foto: Marsyas, Wikimedia Commons.

Imagem galo-romana da deusa Epona. Musée Lorrain, Nancy. Foto: Marsyas, Wikimedia Commons.

Então o leitor brasileiro vai ler um texto sobre os antigos celtas, que tinham líderes tribais e lê coisas como “Alteza”, gente chamando o chieftain de vós e por aí vai. É provável que os “reis” que aparecem no Mabinogion, por exemplo, sejam versões folclorizadas dos antigos deuses celtas. Rhiannon, uma das personagens dos contos sobre Pwyll, Príncipe de Dyved, é provavelmente uma representação de Epona, deusa galo-romana, protetora dos cavalos. Por isso é que em um dos contos a punição para um suposto crime de Rhiannon é ter que se oferecer para carregar as pessoas nas costas.

“Mas eu só quero ler a história!” Claro que sim. Uma das graças em ler essas histórias é que elas pertencem a culturas muito diferentes da nossa. São histórias estranhas – as coisas não acontecem como esperamos e a moral que os personagens seguem não é a moral judaico-cristã. Uma tradução que não venha do original acaba perdendo essas sutilezas e deixa tudo com a mesma cara de sempre. Não é justamente essa uma das críticas que se faz aos blockbusters norte-americanos?

Capa de edição de 1819 de Kinder- und Hausmarchen dos Irmãos Grimm. (Foto: Toronto Public Library)

Capa de edição de 1819 de Kinder- und Hausmarchen dos Irmãos Grimm. (Foto: Toronto Public Library)

Um bom exemplo são os contos dos Irmãos Grimm. Visite a página da Karin Volobuef para ter uma ideia de como a tradução muda um texto. Os contos de fada que você acha que conhece não são aqueles que você viu no desenho da Disney. Segundo Karin, a edição com a tradução mais literal e próxima do texto é:

GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. Os contos de Grimm. Tradução de Tatiana Belinky. 6. ed. São Paulo: Paulus, 1989.

Faça a experiência, você vai se surpreender.

Ending verde

*Patrícia Degani é mestre em Filosofia Antiga e Medieval pela PUCRS.

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